ARTIGO: Allan Kardec e a arte espírita – Reformador/08/2016

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Por Jorge Leite de Oliveira

Neste artigo, trataremos sobre a importância da arte espírita para Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, e da difusão dessa Filosofia e Ciência do Espírito. Kardec foi  grande apreciador da obra de Fénelon que, por sua vez, exerceu influência filosófica sobre Rousseau e Voltaire. A obra literária Telêmaco, de autoria de Fénelon, “epopeia em prosa poética”, pelo seu estilo moralista, influenciou fortemente o então educador francês Rivail. Os três primeiros volumes de Telêmaco foram vertidos por ele para o alemão (WANTUIL; THIESEN, 2004, p. 140).

O genial poeta-romancista Victor Hugo realizava reuniões mediúnicas em sua casa e assumiu, publicamente, sua crença no Espiritismo. Segundo o autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, não se justificavam as críticas e preconceitos da sociedade de sua época em relação aos fenômenos espíritas, para ele suficientemente comprovados como verdadeiros. Em homenagem a uma jovem amiga falecida, atendendo ao pedido da família dela, Victor Hugo disse o seguinte, no discurso que fez, durante os funerais da moça:

[…] O ser chorado desapareceu, mas não partiu. Não mais percebemos o seu rosto suave… Os mortos são os invisíveis, mas não estão ausentes. […] (Apud KARDEC, 2015, p. 87.)

Tais foram os enunciados hugoanos, em concordância com os postulados espíritas, dos quais transcrevemos apenas pequena frase, que Kardec não titubeou em escrever, na Revista Espírita (op. cit.), todo o seu conteúdo e em dizer que só faltou a palavra Espiritismo para confirmar a essência do discurso.

A grande tarefa da literatura espírita, como arte, é exatamente esta: demonstrar, por seu método científico de investigação própria, baseado na observação e na experimentação, a realidade e a beleza da vida espiritual, em contraposição às teorias materialistas. E, da segunda metade do século XIX até os nossos dias, vêm cada vez mais se consolidando no mundo as provas sobre a imortalidade do Espírito e sua manifestação espiritual, além do nosso retorno à vida física, pela reencarnação, até nossa completa depuração espiritual, quando não mais precisaremos reencarnar. A literatura espírita, além de agradar o leitor, proporciona-lhe a esperança de sua sobrevivência após a extinção do corpo físico, esclarece-o sobre todo um mundo real, até então pouco claro nas falas dos padres, presbíteros e pastores do passado, e mesmo da atualidade, salvo exceções.

Na Revista Espírita, publicada mensalmente por Allan Kardec, durante os anos de 1858 a 1869, são abundantes as obras de diversos gêneros textuais recebidas mediunicamente. Assim é que, ali, lemos poemas admiráveis, textos bíblicos, filosóficos e mitológicos, explicados à luz da Nova Revelação, e descrições de seres e sociedades do Mundo Espiritual.

Segundo Kardec (2009, p. 208), os grandes artistas são aqueles cujas obras se imortalizam em virtude da certeza que possuem sobre o futuro espiritual. É preciso ter fé na continuação da vida para se produzir um trabalho artístico que emocione e transforme para melhor o ser humano. Para o Codificador da Doutrina Espírita (id., p. 210), ao longo dos séculos a arte vem evoluindo do Paganismo para o Cristianismo e deste para o Espiritismo, o qual nos dá, sobre a vida após a morte física, os seguintes esclarecimentos:

[…] As moradas dos eleitos e dos condenados já não se acham isoladas; há incessante solidariedade entre o Céu e a Terra, entre todos os mundos de todos os Universos; a felicidade consiste no amor mútuo de todas as criaturas chegadas à perfeição e numa constante atividade, tendo por objetivo instruir e conduzir àquela mesma perfeição os que se tornaram retardatários. O inferno está no próprio coração do culpado, que tem nos remorsos o seu castigo, que não é eterno; e o mau, ao tomar o caminho do arrependimento, se depara novamente com a esperança, esta sublime consolação dos infelizes.

[…]

Sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado. Quando o artista houver de reproduzir com convicção o mundo espiritual, colherá nessa fonte as mais sublimes inspirações […]. (KARDEC, 2009, p. 210- 211.)

Após a desencarnação de Allan Kardec, o mundo conheceu obras artísticas de extraordinária beleza, provindas do além-túmulo. Entre incontáveis obras de inspiração mediúnica, pode-se citar, rapidamente, as do médium Fernando de Lacerda, de nacionalidade portuguesa, que psicografou a obra intitulada Do País da Luz, em quatro volumes, com textos em poesia e prosa de renomados poetas e romancistas desencarnados, tais como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Victor Hugo, Michelet, entre outros.

Outra grande psicógrafa foi Wera Krijanowski, médium russa que psicografou, entre outras   obras   maravilhosas, O Chanceler de Ferro, A Vingança do Judeu e Herculânum, ditadas pelo Espírito John Wilmot Rochester.

A médium brasileira Zilda Gama, psicografou diversas obras, ditadas pelo Espírito Victor Hugo: Na Sombra e na Luz, Almas Crucificadas, Redenção e Do Calvário ao Infinito. Há também, na literatura espírita, belas obras psicografadas por Yvonne do Amaral Pereira, entre as quais se destaca Memórias de um Suicida, com mais de 500 páginas, ditada pelo Espírito Camilo Castelo Branco, sob o pseudônimo de Camilo Cândido Botelho.

Duzentas e sessenta obras já foram psicografadas pelo médium baiano Divaldo Pereira Franco, que completou 89 anos no dia 5 de maio pp. e ainda realiza conferências espíritas no Brasil e no exterior.

Indubitavelmente, porém, Francisco Cândido Xavier (Chi- co Xavier), que até a sua desencarnação, em 2010, havia publicado 412 obras psicografadas, destaca-se como o mais completo médium de nosso tempo. Parnaso de Além- -Túmulo, em relançamento atual, com poemas de dezenas de poetas brasileiros e portugueses desencarnados, foi publicado quando Chico Xavier estava ainda com 21 anos. Após este livro, surgiram centenas de outras publicações do médium mineiro, nos gêneros poético, crônica, romances históricos e outros, confirmando, desse modo, a predição dos Espíritos Superiores a Allan Kardec sobre o extraordinário valor e missão da arte espírita: trazer à Humanidade informações seguras sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos após esta breve existência na Terra.

No Brasil, após o sucesso dos livros, o tema espírita foi transposto para a televisão e o cinema. Algumas novelas espíritas foram muito apreciadas, como Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco e Thelma Guedes, exibida pela TV Globo nos anos 2005 e 2006 e reprisada alguns anos depois, relatando o caso de um homem apaixonado por uma índia, que se tratava de sua ex-mulher falecida e reencarnada. Outra novela de grande sucesso foi Páginas da Vida, também exibida pela Globo, de autoria de Manoel Carlos, entre 2006 e 2007, no chamado horário nobre das 21 horas. A história se refere às manifestações mediúnicas do Espírito de uma jovem mãe desencarnada. Tanto a filhinha dessa jovem quanto sua avó viam esse Espírito, segundo Cânepa (2013, p. 55).

Também no cinema, a sétima arte, no início deste século, nosso País, considerado a maior nação espírita do mundo, vem assistindo a filmes com essa temática, de longa-metragem, com grande número de espectadores. Os dois principais são Chico Xavier e Nosso Lar. O filme Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho, baseia-se na vida do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Foi o filme brasileiro, até a data de sua estreia, com o maior número de espectadores. Cerca de 590 mil pessoas assistiram-no durante os três primeiros dias de sua exibição, segundo informou Fernanda Ezabela em reportagem publicada na Folha de São Paulo, em 5 de setembro de 2010. Calcula-se que esse longa-metragem foi assistido por cerca de três milhões e 400 mil espectadores, de acordo com Cânepa (2016).

Quanto a Nosso Lar, embora de início tenha sido assistido por pouco menos espectadores, do que o filme Chico Xavier, pois foi visto por cerca de 500 mil pessoas, nos três primeiros dias de estreia, ao final de sua exibição alcançou quatro milhões de espectadores, segundo Cânepa (id.).

Em relação ao cinema hollywoodiano, no decorrer do século XX, alguns filmes abordaram os temas da reencarnação e aparições de Espíritos aos chamados vivos. Esses filmes faziam parte do gênero comédia. Como exemplo, Cânepa (2013, p.52) cita a comédia clássica Heaven Can Wait (O Céu Pode Esperar), que teve três versões para o cinema. O filme fala sobre um milionário que morre antes do previsto pelo Plano Espiritual e, por isso, deve reencarnar. Esse filme inspirou outros, não somente no Brasil, mas também em outros países. Entre nós, seu título foi traduzido para O Diabo Disse Não.

No teatro, são comuns as peças de temática espírita. O filme Nosso Lar, por exemplo, devido ao sucesso de bilheteria nos cinemas, também foi adaptado para o teatro. Outra obra espírita best-seller, transformada em peça de teatro, é Violetas na Janela, psicografada por Vera Marinzek de Carvalho. Sua produção foi de Júlio César de Sá Roriz; a direção ficou com o ator Guilherme Correa e a adaptação da atriz Ana Rosa. Entre 1997 e 2007, mais de 300.000 pessoas assistiram ao espetáculo em tournée nacional.

Na pintura, encontram-se diversos médiuns que pintam quadros até com os pés, atribuídos a pintores célebres, como Picasso, Monet, Renoir, entre outros.

Há vários médiuns pintores, mas citarei apenas dois, também denominados médiuns de psicopictografia: Lívio Barbosa e Valdelice Salum. O primeiro, segundo Romero (2016), no dia 19 de junho de 2015, pintou ao vivo um quadro de Oscar-Claude Monet, “o mais consagrado pintor impressionista do mundo”, na TV Cidade Verde, do Piauí. Esclarece-nos Barbosa que para os Espíritos pintarem “por um médium é muito difícil, porque esses artistas [desencarnados] precisam transmitir um pouco ou muito do que sabem por uma pessoa que não tem o conhecimento que eles tinham em vida” (ROMERO, 2016). Talvez aí esteja o motivo pelo qual alguns dos entendidos nessa arte duvidam da autenticidade da autoria do Espírito, ainda que seja espantosa a velocidade de produção das obras e os recursos utilizados para tal, como a pintura com os pés, tudo isso aliado ao desconhecimento, por vezes completo, dessa arte.

Como exemplo, citamos o caso da senhora Valdelice Salum, de 77 anos, semianalfabeta, originária de família rural baiana. Essa médium pinta também com os pés, há mais de 40 anos, telas atribuídas aos Espíritos Aleijadinho, Anita Malfatti, Monet, Picasso, Portinari, Renoir, entre outros. A renda obtida com a venda dos quadros é doada, e Valdelice é reconhecida por sua obra voltada à assistência aos necessitados.

Desde jovem, ela via quadros caindo sobre sua cabeça e não entendia o que se passava. Somente após estar casada, animou-se a procurar Chico Xavier, pois era católica fervorosa. O médium mineiro incentivou-a a estudar o Evangelho e a frequentar uma instituição espírita, após lhe dizer que havia muitos Espíritos pintores ao seu redor, aguardando sua disposição de divulgar a vida espiritual pela pintura mediúnica.

Segundo Zanella (2016), quando Valdelice se apresentou na TV italiana, em 2008, sua pintura fez muito sucesso naquele país.

Cogitar sobre a imortalidade e sobre a possibilidade de os Espíritos desencarnados intervirem no nosso mundo, de modo tão palpável, era como quebrar barreiras de conceitos e preconceitos, de incertezas e de ceticismo. O próprio apresentador disse de público que seria muito difícil esquecer o ar de tranquilidade e serenidade que se respirou durante a gravação do programa e admitiu que ele nunca havia imaginado ver algo similar acontecer diante dos seus próprios olhos. (ZANELLA, 2016.)

No gênero musical, entre outros compositores cantores da atualidade, destaca-se Elizabete Lacerda, que compôs e adaptou diversas músicas, baseadas em mensagens psicografadas por Chico Xavier, do autor espiritual Emmanuel. Uma delas, que faz parte do álbum Elizabete Lacerda – Filhos das Estrelas, tem por título Aceita, que nos deleita com bela mensagem.

Além de emocionar, consolar e proporcionar, por diversos gêneros artísticos, a confirmação do sagrado como parte indissociável da existência humana, a arte espírita, com seu grande destaque na literatura, contrapõe ao Materialismo a teoria do Espiritualismo, confirmada pela Doutrina Espírita, com base no método científico da observação, como anunciou Allan Kardec. Nesse sentido, a arte espírita vem se tornando cada vez mais apreciada, não somente no Brasil, mas também no mundo inteiro; e as obras psicografadas continuam chamando a atenção pela beleza de seu enredo narrativo.

Por meio da manifestação artístico-espírita mediúnica diversa e, em grande parte, da psicografia, confirma-se a promessa de Jesus, em João (14:16) de enviar-nos o Consolador para ficar eternamente conosco.


1 N.R.:  Recebido pelo médium Victorien Sardou. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 1, n. 8, ago. 1858, cap. Observações a propósito dos desenhos de Júpiter; Habitações do planeta Júpiter.

REFERÊNCIAS:

CÂNEPA, Laura Loguercio. Notas para pensar a onda dos filmes espíritas no Brasil. Rumores (USP), v. 7, p. 46-64, 2013.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009. pt. 1, cap. Influência perniciosa das ideias materialistas…, p. 210.

____. Discurso de Victor Hugo junto ao túmulo de uma jovem. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 8, n. 2, fev. 1865. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2015.

ROMERO, Maria. Artista faz pintura mediúnica de Monet ao vivo na TV Cidade Verde. Disponível em: <http://goo. gl/LLnrTC>. Acesso em: 7 mai. 2016.

WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: o educador e o codificador. v. 1. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. cap. 22.

ZANELLA, Regina. Pintura mediúnica é destaque na mídia italiana. Disponível em: <http://goo.gl/eNTphQ&gt;, 7 jun. Acesso em: 7 mai. 2016.

Fonte:
http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/noticias/allan-kardec-e-a-arte-espirita/

 

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