PALESTRA: A Gênese e a Astrônomia

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Republicação da primeira palestra do 2º Semestre de 2011 do Curso “Ciência e Espiritualidade” da AME PARANÁ.

Tema da Aula: “A Gênese e a Astronomia – Uma atualização das descobertas da Astronomia dos tempos de Kardec aos dias atuais.” com o Astrônomo Espírita CARLOS FINI, realizada no dia 10 de Agosto de 2011, no Centro de Convivência do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, em Curitiba.

A Palestra faz parte do Grupo de Estudos Espíritas da Associação Médica do Paraná (AME – PR), sob a coordenação do Dr. Edson Tristão, do Dr. Francis Mourão. e do Dr. Laércio Furlan, que a cada semestre traz um tema a ser debatido no decorrer de 5 palestras (1 por mês).

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PALESTRA: Marcus Vinicius Papa Lobo – Deus e o Universo

“Falar sobre Deus e o universo é um grande quebra-cabeça” A palestra ministrada por Marcus Vinicius Papa Lobo no dia 8 de outubro evidenciou que a ciência e o Espiritismo andam sempre de mãos dadas. O tema “Deus e o universo” foi abordado com exemplos de livros de autores renomados da ciência, tais como Einstein, Darwin e Carl Sagan. Parte destes cientistas, que por muitas vezes se mostram materialistas e são até julgados ateus, acabam por admitir que ainda somos muito limitados para entender todas as forças que regem o universo. O palestrante aponta o seu ponto de vista: “se para o funcionamento de um relógio é preciso um relojoeiro, fica difícil imaginar como seria um universo, ou até mesmo uma simples célula sem um grande arquiteto, apesar de que, cientificamente falando, ainda não podemos afirmar a existência do Criador”. O Livro dos Espíritos define Deus como inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

Obras citadas:

Carl Sagan – Cosmos
Camille Flammarion – Deus na Natureza
Frei Betto – A Obra do Artista
Charles Darwin – A Origem das Espécies
Alfred Russel Wallace – O Aspecto Científico do Sobrenatural
Richard Dawkins – Deus, um Delírio
Isaacson Walter – Einstein – Sua Vida , seu Universo
Blaise Pascal – Pensamentos
Stephen Hawking – Uma Breve História do Tempo
Sigmund Freud – Moisés e o Monoteísmo
Friedrich Nietzsche – A Gaia Ciência
Carl Sagan –  O Mundo Assombrado Pelos Demônios 

ARTIGO: Das Partículas Rebeldes ao Bóson De Higgs

“As palavras pouco importam; cabe a vós formular vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. Vossas discussões provêm, quase sempre, de não vos entenderdes sobre as palavras, porque vossa linguagem é incompleta para as coisas que não impressionam os vossos sentidos.” (O Livro dos Espíritos, questão 28.)

Desde tempos primevos, o homem procura entender o espaço que habita e os fenômenos que o circundam. Assim, procura alcançar o conhecimento total sobre todas as coisas. Após ter visto um momento de esplendor na Grécia Antiga, tendo como nome principal Aristóteles, a Física entrou em declínio na Idade Média, tendo revivido apenas durante o Renascimento, durante a Revolução Científica. Galileu Galilei é considerado o primeiro Físico em seu sentido moderno, adotando a Matemática como ferramenta principal. É, também, um dos pioneiros a descrever o real objetivo de um cientista: sua função é apenas descrever os fenômenos em vez de tentar explicá-los.

Já dotada de um método científico, a Física teve uma notável evolução com Isaac Newton, que realizou a primeira grande unificação ao consorciar Céus e Terra sob as mesmas leis da Física: a Gravitação Universal. Nos séculos XVIII e XIX surgiram os fundamentos da termodinâmica e do eletromagnetismo, destacando-se Clausius, Joule e Michael FaradayJames Clerk Maxwell realizou outra grande unificação da Física ao fundir eletricidade e magnetismo sob as mesmas descrições matemáticas, sendo que toda a óptica pode ser derivada da teoria eletromagnética de Maxwell. No final do século XIX, pensava-se que todos os fenômenos físicos poderiam ser explicados dentro das teorias correntes. Entretanto, certos “fenômenos rebeldes” fugiam ao alcance dos cientistas.

No início do século XX, ao tentar explicar matematicamente a radiação de corpo negro (radiação eletromagnética emitida por qualquer corpo em determinada temperatura), Max Planck introduziu o conceito de quantum de energia. Em 1905, Albert Einsteinapresentou, sob a forma de cinco artigos, as bases da Relatividade e da Mecânica Quântica. Tais “fenômenos rebeldes” finalmente foram explicados, mas a ontologia determinista estrita e pontual, característica da mecânica newtoniana, foi abalada seriamente; sendo, ainda, fortemente ferida após a publicação do Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg e do princípio da complementaridade (assevera que a natureza da matéria e energia é dual e os aspectos ondulatório e corpuscular não são contraditórios, mas complementares) de Niels Bohr. Desde então, a Física preocupa-se em explicar, sob o ponto de vista da Física moderna, a natureza das quatro forças fundamentais da Natureza (gravidade, forte, fraca e eletromagnética. O problema é que há uma mistura de adjetivos com substantivos) e eletromagnetismo. O Modelo Padrão, apresentado na década de 70, descreve três das quatro forças (a gravidade ainda carece de uma explicação teórico-experimental). Mas faltava a realização de um experimento para que essa tese — a unificação destas forças — fosse confirmada e, assim, aceita pela comunidade científica. Era preciso encontrar uma partícula chamada bóson de Higgs, batizada em homenagem ao físico escocês Peter Higgs, que a previu em 1964.

O que são bósons? De acordo com a física moderna, tudo que existe pode ser descrito por meio de 17 partículas elementares. Elas são divididas em dois grupos: os férmions e os bósons. Os férmions são subdivididos em seis tipos de quarks (que constituem o próton e o nêutron do núcleo atômico) e seis de léptons (entre eles, o elétron). Os bósons incluem outros cinco tipos de partículas, como o fóton (partícula de luz) e a de Higgs. O bóson de Higgs é importante porque explica como o átomo adquire massa e, assim, compõe toda a matéria. Logo após o Big Bang, a explosão que deu origem ao Universo há 13,7 bilhões de anos, um campo formado por partículas de Higgs foi responsável pela desaceleração e resfriamento de outras partículas elementares. Isso possibilitou a formação de estrelas, planetas e tudo o mais que existe no Universo. A experiência que permitiria aos cientistas observar o “bóson da Criação” só poderia ser realizada no LHC, pertencente ao Cern(Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear).

O acelerador foi construído na fronteira entre a França e a Suíça, em 2008, ao custo de R$ 10 bilhões de dólares. É o maior e mais caro instrumento científico já construído pelo Homem. Depois de quase meio século, físicos anunciaram no dia 4 de julho de 2012 a descoberta do bóson de Higgs, a peça que faltava para compor o “quebra-cabeça” que representa toda a matéria do Universo. Essa descoberta, agora, poderá abrir novos caminhos e dar esperanças para a formulação da Teoria do Campo Unificado, que irá reunir a física de partículas do Modelo Padrão com a teoria da gravidade, entender mistérios como a energia escura e — por que não dizer? — estar mais próximos do fluido cósmico universal.

Fonte: http://jornalcienciaespirita.spiritualist.one/das-particulas-rebeldes-ao-boson-de-higgs/

ARTIGO: Flammarion e outros Cientistas Espíritas

As Memórias do Camille Flammarion são deveras interessantes. Mereciam uma tradução completa para o português. Mostram uma alma inquieta; alguém que deseja ardentemente o conhecimento do nosso destino após a morte, mas mantém-se suficientemente lúcido para não abandonar o critério estritamente científico e não cair em certezas precipitadas, mesmo tendo que pagar o preço da angústia permanente da dúvida.

Espiritismo ou animismo? Animismo ou espiritismo? É a gangorra onde ele balança sua angústia por toda a vida.

No Capítulo XIII ele aborda suas experiências espíritas. Faz, também, um breve relato e uma análise dos três cadernos resultantes das experiências realizadas sob a direção do Victor Hugo, quando na ilha de Jersey. Chega a elaborar a hipótese de que a soma dos presentes cria as personalidades comunicantes sob o domínio da mente prodigiosa de Hugo.
Vamos a alguns trechos desse capítulo:

“Ação inconsciente da alma. Mas como?
Existem espíritas de uma fé cega, que têm certeza de estarem em comunicação com os espíritos. Não há como chamá-los à razão. Eles não me perdoam de não compartilhar suas certezas, que se tornaram entre eles crenças religiosas. Mas há outros que compreendem que apenas o método científico pode nos conduzir ao conhecimento verdadeiro. Esses continuam meus amigos. Eu acabei de encontrar numa coletânea de correspondências a carta seguinte que me permito reproduzir, e que parece ter seu lugar aqui. Ela é datada de Bordeaux, 29 de março de 1904:

‘Caro mestre,

Há cerca de quarenta anos, ouvi, em Bordeaux, um velho fazer o elogio de um jovem, por volta dos dezoito anos, portador de condições de fato excepcionais. Segundo ele, esse jovem seria um prodígio, que deveria remexer o mundo.
O jovem, era o senhor.
O velho, era Allan Kardec.’ (…) (J.Bayard).

A carta continua, tecendo elogios ao espírito científico do Flammarion.

Ao final, ele ajunta:

“Publico esta carta, dentre várias, para mostrar que nem todos os espíritas me guardam ressentimento em função do meu método científico. Pode-se repelir o espiritismo, pode-se repelir o cristianismo, sem deixar-se de ser espiritualista. São doutrinas claramente distintas.”

A informação desta carta, a análise na Revue à sua obra, e outras manifestações de Kardec deixam clara a predileção e o carinho que o fundador do Espiritismo nutria por ele; e compartilhava com a Amelie que, ao herdar seu espólio, tudo fez para que o jovem astrônomo se tornasse o continuador da obra. Certamente, viam nele o filho que desejariam ter tido. Por mais independente que fosse, ante tanta consideração seus sentimentos não lhe permitiriam apartar-se totalmente da hipótese espírita, e, é bem provável, condicionaram sua abordagem delicada e suas críticas amenas à “obra de feição pessoal”, ou à “religião” do amigo, externadas no discurso do sepultamento.
Mas, ainda que sutil, tal abordagem serve como evidência histórica de que os homens de ciência contemporâneos do surgimento do espiritismo criticavam e denunciavam o encaminhamento religioso que Kardec dera ao assunto. Ou seja, para os cientistas, o espiritismo kardecista já nascia religioso.
Comprova isso a manifestação mais dura de Aksakoff, livre de qualquer laço de amizade, conhecida pela recente divulgação de algumas cartas onde critica o aspecto religioso do kardecismo. Também o comprova a introdução de Richet ao seu Tratado de Metapsíquica, onde, apesar de prestar homenagem a Kardec, critica sua vocação religiosa.
René Sudre, em sua Introdução à Metapsíquica Humana, após expor sua tese da prosopopese-metagnomia, primeira edição da hiperestesia indireta do inconsciente do Quevedo, e inventariar as últimas descobertas da psicologia sugerindo sempre o animismo como motor dos fenômenos, finaliza: “Assim o Espiritismo dito “científico”, inaugurado por Delanne, parece haver entrado em falência, nada mais sobrando para a grande massa do que o velho Espiritismo moral de Allan Kardec que, em si, não é, de todo, mau, e que serve para levar aos aflitos ilusões consoladoras”.
Tudo isso indica que havia, no final do século XIX e começo do XX, duas veredas espíritas: o Espiritismo científico e o Espiritismo religioso. O primeiro, representado por Delanne, Lombroso, Bozzano, Aksakoff, Crookes, Zollner, Geley e outros, reúne os pesquisadores que adotam a hipótese espírita para explicar os fenômenos. O segundo, representado pelos seguidores de Allan kardec (Leymarie, Dennis, Meyer e outros), reúne os que, além, claro, de adotarem a hipótese dos espíritos provocando os fenômenos, têm a certeza de sua identidade e de sua superioridade moral, absorvem respeitosamente seus ensinamentos, e crêem que o Espiritismo é uma revelação divina, consolador prometido, ressuscitador do cristianismo, destinado a inaugurar uma nova era da humanidade. Enfim, se não religião, algo bem parecido.
Como eu já disse em postagem de 01.07.2009, o segmento religioso sobreviveu por uma questão de seleção natural. Vale repetir:

A morte do espiritismo científico e a sobrevivência do espiritismo religioso deveu-se, simplesmente, a uma lei de seleção natural (no caso, na epistemologia, porém equivalente àquela da biologia: é só fazer as necessárias analogias – assim, se não for verdade, ao menos rima, ou seja, se non è vero è piu trovato).
E qual foi a mudança no ambiente (ambiente intelectual, claro) que provocou o desaparecimento do espíritismo científico?
Emergiram, no oceano do conhecimento humano, as pesquisas do inconsciente, trazendo para o meio científico explicações muito mais convincentes para os fenômenos mediúnicos, do que as explicações espíritas. Ante a aceitação de uma nova teoria e prática albergada sob o nome de psicologia — palavra até então utilizada para a designação de uma disciplina filosófica, e que passa a designar uma ciência –, o espiritismo foi perdendo todas as esperanças de ser aceito como ciência. Consequentemente, sua vertente científica extinguiu-se. Já a vertente religiosa, conseguindo não só aparar como revidar os golpes dados na área do conhecimento em que transitava (a religião), sobreviveu e multiplicou-se.
Hoje, o espiritismo apreendido e praticado como religião é claramente hegemônico em todo o mundo.

VOLTANDO AO FLAMMARION…

Alguns dizem que Camille Flammarion oscilava entre explicações espiríticas e explicações pelo inconsciente. Na verdade, ele vivia e valorizava a dúvida. Por isso, se irritava com todos os que têm certeza absoluta das coisas. Criticava a postura não científica dos espíritas que têm certeza de que foi realmente Sócrates, Platão e companhia a trazer-lhes a doutrina. Mas, criticava principalmente a postura anti-científica dos próprios cientistas, que negam a priori, ou com pouquíssimos elementos para tal.

São suas palavras nas sombras da dúvida:
“Não encontro nada do que procuro, o Espiritismo não me satisfaz, e eu sou tentado a dizer com Dante: A floresta que me envolve é obscura, áspera e selvagem“.

Para logo se erguer na dúvida construtiva:
“Devemos compreender que não podemos tudo compreender”.

FLAMMARION ESPÍRITA?

“Em 31 de março de 1869, o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, aos 65 anos, e em 2 de abril seria sepultado no cemitério do Norte. Relatei mais acima como havia entrado em relações com ele no mês de novembro de 1861. Embora meu trabalho não me permitisse nenhuma assiduidade às reuniões da sociedade espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa sociedade convidou-me, em seu nome e no de Madame Allan Kardec, para presidir as exéquias civis e pronunciar um discurso. Eu estava me mantendo à distância desde algum tempo sobretudo, não admitindo que o espiritismo pudesse ser a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me a tão honorável convite… (…) O Comitê me propôs suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver ali, durante ainda muito tempo, uma religião, em vez de uma ciência, além do que a identidade dos “espíritos” está longe de ser provada. Quarenta anos se passaram desde então. Os seguidores de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única que poderia nos esclarecer exatamente”.
(Camille Flammarion
Memórias biográficas e filosóficas de um astrônomo

Ernest Flammarion Editeur, Paris, 1911 — Em facsímile da Gallica.bnf.fr).

Flammarion era um geniozinho de 19 anos quando encontrou-se com Kardec e começou a frequentar a sociedade espírita de Paris. Aos 27 já o vemos afastado do espiritismo, e recusando convites da própria Amelie Boudet para retornar em posição de destaque. Ele morreu aos 83. Seu afastamento precoce se deu por não concordar com os rumos que o presidente-fundador dava ao movimento: sem ter ainda construído uma metodologia que identificasse os espíritos de forma rigorosamente cientifica, ele não só os aceitava como tais, como os recebia na condição de sábios, enviados por Deus para procederem a uma nova grande revelação para a humanidade. Uma humanidade que, àquela altura, já prescindia de revelações divinas, pois adquirira maturidade suficiente para desvendar os segredos da natureza por si mesma. Aliás, poucos anos depois aposentaria o próprio Deus.
É incrivel como ainda hoje, no século XXI, encontramos pessoas que dizem ser científico sentar-se à frente de uma jovem em transe e acreditar-se estar recebendo de um Galileu ou Leonardo, profundas revelações ou soluções de problemas que temos condições e obrigação de buscar pela filosofia e pela ciência.
Agora, como religião, é outra coisa. Como religião, aceitamos de bom grado, principalmente se mantém nossa auto-estima, nossa felicidade e nossa saúde, até a revelação de um mendigo.
Daí porque Kardec, ao fim da vida, entregou os pontos e admitiu que era presidente-fundador de uma religião, ainda que, relutava, “em sentido filosófico”.
Mas, o mais incrível de tudo é a teimosia cega com que os intelectuais espíritas repetem o lugar-comum de que o espiritismo era científico na Europa e foi transformado em religião no Brasil, ante toda essa evidência histórica em contrário!